Se há uma coisa da qual me orgulho é da minha aparente organização. Dia 02 de maio, início de mês-pós-feriado, dia de ir ao banco pegar o dinheiro para pagar as contas-fixas, aquelas que vão pingando ao longo do mês: diarista, pet-shop, feira, cervejas e qualquer outra coisa que se diga (i)lícita.

Saio pelas ruas do bairro buscando um assunto para o texto, sem notar que o assunto do texto são as próprias ruas do bairro. O barulho das constantes freadas me alertam: 13h30, hora da “troca de turno”. A José Hemetério – aquela rua do Colégio Magnum, esquina com o “Yahoo” – sofre um processo de “Afonsopenismo”, tamanha é a quantidade de carros querendo atingir a “Mário Artéria-Central Werneck”.

O fenômeno me assusta. Que diabos há para haver tantos carros nas ruas? Claro. Todo mundo por aqui quer chegar ao compromisso do turno que se aproxima: a tarde. O início da manhã talvez seja um pouco pior. Ninguém respira sossegado antes de chegar à “Artéria-central” (que, entupida de cinquenta-e-dois-zero-uns, ou do pior de todos os paus-de-arara: os noventa-e-dois-cinquentas), sempre nos causa a sensação de que o infarto se aproxima.

Formigas trabalhando, cigarras cantando. O cheiro de óleo diesel misturado com hálitos de sorrisos mal-humorados disfarçados de alguma rara simpatia. É o bairro tomando sua forma de pequena-grande-cidade dentro de uma cidade grande que, dizem, é uma ‘roça grande’. Preciso pensar: Se Belzonte é roça grande, o que seria então o Buritis? Rocinha grande? Roça pequena? Roça grandinha? Rocinha pequenininha? Não sei. E isso não importa. Mas acho que “cidadezinha” cabe como atributo ao bairro.

Os turnos a que chamamos de dia pertencem aos cachorros, aos carros, aos ôns, a uma senhora ou outra com sua sacola “Romero Brito”, a um jovem ou outro com músculos pretensiosamente torneados pelas academias, já desejosos do verão de 2017. E assim segue a rotina, tumultuada e contraditoriamente calma, mas eu preciso me apressar. Daqui a pouco trocamos o turno de novo e o “Afonsopenismo” vai persistir até umas 20h, quando o bairro se transforma mais uma vez.

Agora é que vem a bronca. À noite é que vem a suspeição. É o turno da contramão das motos barulhentas que colocam em risco a pouca vida que anda nas calçadas do bairro. Assusta-me a ousadia dos “moto-diversidade”, que, na busca por atalhos das entregas da vida, não poupam o risco, nem as entregas, nem o que está no meio do seu egóico trajeto.

16h30, tenho que dar um jeito de terminar o texto e ir buscar o pão-nosso-de-cada-dia. A agitação da troca de turno que se aproxima pode tornar mais difícil a minha tentativa de sobrevivência pela farinha-de-glúten. Enfrentar a troca de turno para ir à padaria é o mesmo que comer o “pão que o diabo amassou”.

Antes de me despedir, explico o termo “moto-diversidade”: outro dia pedi um lanche, à noite. A pizza chegou embolada, toda revirada na caixa. O moto-boy era um moto-girl. Podia ter sido um moto-trans, um moto-trava, um moto-sapa… “Moto-diversidade”. Fica bom, engloba todo mundo… mas os serviços continuam arriscados, as encomendas continuam emboladas. Muda-se o termo, muda-se o turno, permanecem os vícios, os perigos, as consequências… e, com o dia que se vai, vai também o odor da fumaça do dia que estava sobre nossa pele, disfarçado pelo aroma de perfumes importados diretamente da China. Todo mundo ó: gente fina!

 

 

Bruno de Assis Freire de Lima é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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