Sinal, semáforo, farol, não importa o nome que lhe dê, esse objeto de organização do trânsito tem sido instrumento de trabalho para muita gente. A gente cresce vendo meninos descalços se esquivar entre os carros, vendendo cápsulas de açúcar, que denominamos “bala”.  O sinal vermelho é a sua proteção, fonte de renda, fonte de vida. Abriu sinal, perigo à vista: motoristas aceleram seus carros feito “bala” na busca desenfreada por chegar ao destino. Muita gente nem sabe qual é o seu destino.

Aqui no Buritis, não temos visto meninos nos sinais, mas, bem ali no cruzamento da Mário Werneck com Paulo Piedade Campos, divide espaço um tanto de gente querendo vender coisas pra gente. Tá certo. Não são meninos descalços, porém, como eles, são gente precisando sobreviver. Paro no sinal, e sempre acontece algum diálogo.

Lembro-me do disco “Atento aos sinais”, do Ney Matogrosso. Tem uma música que diz: “Os curiosos atrapalham o trânsito / Gentileza é fundamental / Não adianta esquentar a cabeça / Não precisa avançar no sinal / Dando seta pra mudar de pista / Ou pra entrar na transversal”. Então vamos lá: parar no sinal, ater-se a ele, refletir sobre ele.

CENA 1:

Fim de ano, uma época em que choveu bastante aqui no bairro: primeira quinzena de dezembro. Tomei uma chuva “da moléstia” e não podia mais ser um homem “sem um guarda-chuva”. Lembrei que há dias vi uma mulher vendendo sacos no sinal. Gente vendendo saco. Gente chamando saco de ‘’pano de chão’’ ou de ‘’pano de prato’’. Considerando que usar o pano no chão ou no prato é realmente um saco, a visão daquela mulher vendendo guarda-chuva encheu-me de esperança de conseguir ficar seco quando precisasse. Que saco! Já sabemos que isso é uma estupidez sem tamanho, porque a chuva sempre cumpre sua missão de molhar. O importante é que a mulher, além de saco, vendia guarda-chuva. Vendia. O verbo é esse mesmo, porque se você passar lá hoje para comprar um, você não encontra. A danadinha conhece bem o “período da safra” do guarda-chuva: é dezembro, quando chove mais.

Parei no sinal na intenção de comprar o guarda-chuva. A mulher, com sacos por todos os ombros e com sombrinhas penduradas nas árvores se aproxima. Digo apressado: “Tia, por favor, quanto é aquele guarda-chuva preto pendurado na árvore?”. A tia, muito esperta, mal tinha acabado de abrir a boca para me responder e já estava com o guarda-chuva pretendido nas mãos, aberto, me mostrando as “funcionalidades do produto”. O sinal também não esperou muito. Nosso diálogo foi breve. Saí dali com o guarda-chuva no carro, satisfeito. O guarda-chuva não é lá grandes coisas, mas apresenta a principal característica de que eu precisava: é um modelo prático e chegou até mim também de forma prática. Papo de sinal:

— Ai, não me chame de tia! Será que eu estou tão velha assim? – Responde-me a mulher já com o dinheiro em uma das mãos, passando-me o guarda-chuva com a outra.

— Olha, se está velha eu não sei, mas com esses sacos… Parece a velha-do-saco, lembra?

A mulher, que se chama Maria, abriu-se em gargalhadas, sumindo entre os carros, mestre-dos-magos.

CENA 2:

Sinal acaba de fechar. Logo à frente, observo meninas bonitas, com uniformes feios, de uma construtora popular, cujo nome é formado por três consoantes… hum… hum… lembrou? Pois então! Elas estavam distribuindo “casas em panfletos”. Estavam vendendo sonho de apartamento (que, na realidade, só quem já morou na construtora de três consoantes sabe o pesadelo que é!). Alguns motoristas à minha frente, gentis, de janelas e sorrisos abertos, estendem discretamente as mãos para pegar seu “apartamento estampado na propaganda”. Outros, de janelas e sorrisos fechados, sequer olham para o lado de fora. É assim: como se as meninas fossem ninguém, sabe como é?

Eu queria ser diferente desses motoristas. Para isso, havia apenas uma alternativa: janela e sorriso abertos, uma recusa ao panfleto que ia ser entregue para mim em instantes, e um bom argumento capaz de convencer a moça de que ela estava perdendo seu tempo em esticar seu braço em minha direção. Olho para a sujeira e a quantidade de papel que está espalhada pelo meu carro. A menina se aproxima. Eu, com sorriso no rosto, digo:

— Ah, querida! Muito obrigado! Não posso contribuir para sujar ainda mais o meu carro!

A menina, com um poderoso sorriso de hálito fresco, nem sei se com intenção de me agredir verbalmente, disse:

— Tudo bem! Eu também sou chata e porca com meu carro.

Ainda bem que o sinal abriu. Esse é o tipo de situação em que vale aplicar a expressão: “Toma, distraído!”

 


Bruno de Assis Freire de Lima é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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