Na última edição do JORNAL DO BURITIS foi publicada uma nota, que falava sobre o sucesso de um ano do lançamento do livro  “O Amor nos tempos do AI-5”, do escritor/morador do bairro, Ricardo Moura. Como muitos de nossos leitores não conheciam nosso autor, tampouco sua obra, ficaram ansiosos por mais detalhes. Sendo assim, para esta edição trazemos uma entrevista especial com Ricardo Moura. Confira.

JORNAL DO BURITIS: Conte um pouco da sua história.
RICARDO MOURA: Nasci e vivo em Minas Gerais, mas com um profundo desejo de ir morar na praia. Fiz meus estudos iniciais em escola pública, depois fiz o ginásio em escola particular, voltei à escola pública para fazer o ensino médio no Colégio de Aplicação da UFMG, e minha graduação em História foi feita na UFMG. Posteriormente, fiz uma pós-graduação em História Moderna e Contemporânea na PUC-MG. Fui professor durante 35 anos, lecionando para todos os níveis de ensino e concluindo no Centro Universitário de BH, ajudando na formação de novos professores. Escrevi dezenas de livros didáticos e paradidáticosde História, que foram usados nas escolas do Brasil inteiro. Atualmente sou aposentado, o que me permite ter bastante tempo para redirecionar meus interesses para a literatura. Já publiquei este primeiro romance e tenho outros, dos quais poderei falar mais adiante.

JB: Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o AI-5?
RM: Vivi os tempos sombrios quando era estudante. Entrei para a universidade em 1969, meses após a publicação do AI-5, que ocorreu em dezembro de 1968, o que me permitiu presenciar e participar de situações que entendi pertinentes ao romance que intitulei “O amor nos tempos do AI-5”.

JB: O AI-5 é cada vez mais um objeto de estudo crucial para o entendimento da atual política de estado brasileira?
RM: Considero tragédia o que aconteceu em 1964 e 1968 e farsa completa o que está acontecendo agora no país, com a derrubada da presidenta eleita e a assunção de um governo formado essencialmente por pessoas corruptas, reacionárias, que estão tentando levar o país ao século passado. E cidadãos desavisados vão às ruas pedindo a volta dos militares ao poder. Portanto, estudar o nosso passado, especificamente o período militar, é crucial sim.

JB: Você acredita que há um desconhecimento da população em relação à sua própria história recente?
RM: O que nós assistimos em 2016, no Brasil, nas passeatas organizadas pelos movimentos que defendiam o impeachment da presidenta Dilma foi uma demonstração cabal da ignorância política e de nossa história. Acusavam-se pessoas de serem comunistas (discurso igual ao de 1964), mas quem acusava não era capaz de explicar o que era comunismo. Pedia-se a volta dos militares, demonstrando o total desconhecimento do que foi aquele período. Seriam pessoas que não tiveram oportunidade de estudar o presente? Ficaram só no passado? E na Bienal do Livro de São Paulo eu tive a desagradável constatação dessa ignorância. Um rapaz de vinte e poucos anos, aproximou-se de mim na tarde de autógrafos, e perguntou, com uma ingenuidade absoluta: AI-5 é Artificial Intelligence nível 5? Vamos rir ou vamos chorar?

JB: Há uma grande diferença cultural entre a década de 70 e os dias atuais. Você acha que o fim da censura influenciou o rumo que a cultura brasileira tomou ou o mundo/a vida só está seguindo seu curso?
RM: Sem dúvida, nestes 50 e poucos anos de diferença entre uma época e outra, muita coisa se modificou. Quando você pega as letras das músicas de um Chico Buarque, de um Milton Nascimento, de um Caetano, e tantos outros e vê verdadeiras obras primas literárias e compara com essas “coisas” que se ouvem atualmente, dá vontade de chorar. Eu acredito que essa pobreza intelectual dos compositores de hoje se deve a dois fatores: primeiro que são pessoas mais jovens, nascidas bem depois dos anos 70 e que sofreram com a péssima qualidade de ensino que passou a existir com os governos militares. O outro aspecto é a influência deletéria dos meios de comunicação, que precisam criar ídolos e personalidades constantemente e praticamente impõem os ritmos, as letras e os artistas que devem aparecer para o público. Não acredito que isso seja efeito do fim da ditadura, pois é uma tendência mundial. Nós apenas seguimos o caminho… péssimo caminho, diga-se de passagem.

JB: Com relação à educação, quais as principais mudanças, positivas e negativas, que aconteceram de 1970 para cá?
RM: A qualidade do ensino decaiu. Este é o resultado malévolo (gostou da palavra?) das reformas educacionais do período militar. Assunto que também aparece no romance. A desvalorização dos professores, um escândalo! Não só financeira. Difícil pensar em algum futuro para o país. Crises políticas, econômicas? Elas vêm e vão. Já vivenciei muitas e sobrevivi a todas! Falência educacional? Não tem cura. Leitura ajuda, mas não cura.

 

Fonte: Jornal do Buritis

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