Volta e meia aparece no grupo do Meu Bairro Buritis no Facebook, o novo clichê dos tempos atuais sobre os moradores do bairro: “O pessoal do Buritis só reclama de tudo”. Mas será que isso tem mesmo algum fundamento?

Um dos maiores exemplos de situações onde sempre surge esse tipo de acusação, é em relação a festas ou eventos com som muito alto e os consequentes posts de gente reclamando que não consegue descansar ou dormir. Aconteceu novamente neste último domingo. Uma participante do grupo fez uma postagem reclamando de uma festa que estava com o volume do som muito alto. Isso foi ainda durante a tarde, diferente da maioria das outras vezes quando os posts de reclamação acontecem pela madrugada. E aí, como já é comum, o que veio em seguida foi a avalanche de comentários irônicos, mandando a pessoa “mudar pra roça”, ou que ela vá participar da festa ao invés de reclamar.

Um dos comentários foi de um rapaz que dizia ser o DJ da festa em questão. “Sabia que haveria reclamação aqui no grupo, como sempre tem, independente do volume, música ou evento. Sem querer defender quem faz festa ou quem quer descansar, mas acho que muitas pessoas reclamam de tudo aqui. Festa pode, mas sem nenhum barulho, e mesmo assim as pessoas reclamam que a rua esta muito cheia, tem muito carro estacionado e por ai vai. Tudo vira motivo de reclamaçao. O Buritis é o bairro que menos gosto de fazer festa e sempre alerto que haverá reclamação. As pessoas desse bairro reclamam dos outros mas quando são eles fazem a festa querem que outros compreendam. Muita incoerencia!”, escreveu.

Vamos a algumas constatações. O bairro Buritis é hoje o segundo mais populoso da capital. Se agregarmos bairros vizinhos como o Estoril e o Estrela Dalva, que são frequentemente considerados quase como parte do Buritis também, é provavel que a região assuma a dianteira neste ranking. Nosso grupo no Facebook tem aproximadamente 55 mil pessoas atualmente. A grande maioria são de moradores de Buritis, Estoril, Estrela Dalva, Palmeiras, Havaí e Betânia, embora tenha também gente que mora em diversas outras regiões mas frequenta o bairro por estudar ou trabalhar aqui, ou diversos outros motivos. E são pessoas de diversas classes sociais, faixas etárias, formações, níveis educacionais, gostos e credos muito diferentes.

Bem, qualquer grupo de seres humanos com um número tão grande de participantes tão diferentes entre si, vai ser cheio de conflitos, discussões e diferenças de opinião. Claro que vai ter gente que adora as festas e agitação e outros que preferem paz e sossego e fica incomodado com o som alto e algazarra nos seus momentos de descanso. Assim como tem gente que acha válido reclamar nas redes sociais quando é mau atendido em um local, e outros acham que isso deve ser feito em privado com os responsáveis. Tem quem goste de arroz com feijão e quem prefira pizza. Uns torcem pro Galo, outros pro Cruzeiro, e outros não curtem futebol. Isso tudo é algo mais do que normal e previsível. É claro que, para podermos viver em sociedade precisamos cultivar valores como respeito ao próximo, tolerância e educação. Existem leis para garantir certos limites e a velha máxima de que seu direito começa onde termina o do outro.

Mas muita gente deixa de praticar alguns desses valores como deveria, e aí surgem os conflitos. Alguém que está incomodado pelo som alto demais, reclama. Um jovem, que adora uma boa farra, acha a reclamação muita chata. Pra ele aquela pessoa é uma velha, reclamona e só quer estragar a diversão dos jovens. E aí ele comenta isso. Em seguida aparece alguém pra defender quem reclamou, e dizer que o jovem não respeita o direito alheio. Outra pessoa, vendo o debate, toma as dores do jovem. E assim segue o baile. O que começou como um conflito por diferenças de opinião normal entre pessoas de grupos diferentes, acaba potencializado pelo chamado “comportamento  de manada”.

Segundo uma reportagenm da BBC Brasil, o conceito faz referência ao comportamento de animais que se juntam para se proteger ou fugir de um predador. Aplicado aos seres humanos, refere-se à tendência das pessoas de seguirem um determinado grupo, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual. “Se muitas pessoas compartilham uma ideia, outras tendem a segui-la. É semelhante à escolha de um restaurante quando você não tem informação. Você vê que um está vazio e que outro tem três casais. Escolhe qual? O que tem gente. Você escolhe porque acredita que, se outros já escolheram, deve ter algum fundamento nisso”, diz Fabrício Benevenuto, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sobre a atuação de usuários nas redes sociais.

É o que acontece no grupo do Meu Bairro Buritis no Facebook. Quando alguém vê que várias outras pessoas já comentaram um post ironizando quem postou, sente a aprovação pra também ironizar. Assim, muitas publicações acabam gerando debates e brigas, e as pessoas do Buritis ficam com fama de chatas. Mas parece óbvio apostar que em qualquer outro grupo semelhante de outra região da cidade ocorreria o mesmo. Muitos outros grandes grupo do Facebook são focados em um determinado assunto mais restrito, como por exemplo fãs de cinema. Mesmo que tenha pessoas muito diferentes, ali naquele espaço elas compartilham aquilo em comum e vão falar somente sobre aquila temática. O potencial de conflitos é menor. Mas em um grupo como o nosso, onde se fala de tudo, com participação de todo tipo de pessoas, cuja única característica em comum é a proximidade física de onde moram, as diferenças aparecem com mais facilidade.

As pessoas reclamam daquilo que as incomoda. Elas buscam um espaço onde possam desabafar, encontrar quem se solidarize e quem sabe conseguirem formar um grupo para exigir seus direitos, trocar informações. Lembre-se que nem todo mundo é igual. Se aquilo não te incomoda, ótimo, mas isso não quer dizer que não incomode outros. É preciso respeitar a diferença. O debate é sempre saudável e a diferença nunca vai deixar de existir. O que não pode é tentar desqualificar o outro.

Mas assim como há muito conflito, nosso grupo também abriga muita coisa boa. Muita gente já foi ajudada através daquele espaço. Açoes sociais já foram organizadas, autônomos conseguiram sua clientela, amizades foram feitas… Cabe a cada um de nós potencializar o que há de melhor em cada local e em cada ferramenta, ao invés de se concentrar no negativo. Que tal procurarmos seguir a regra de que se você não tem nada de bom, útil ou construtivo pra dizer, guarde pra si mesmo?

Sabemos que as redes sociais nos dão uma sensação de proteção e liberdade pra falarmos coisas que não falaríamos frente-a-frente. E com isso muita coisa ruim vêm a tona. Mas o problema não é a rede social em si. Ela apenas nos faz mostrar o que já estava dentro de nós. O que precisamos é aprender a usar a ferramenta para o que ela tem de melhor a oferecer, e buscarmos espalhar empatia, respeito, educação e civilidade. Vamos mostrar o que temos de melhor.

 

 

 


Leonardo Orrico
Publicitário, entusista das redes sociais, administra o projeto Meu Bairro Buritis junto com sua esposa e seus seis gatos, tentando fazer sua parte para um mundo melhor, começando pelo seu bairro. 

 

2 Comentários
  1. Elisangela 5 meses atrás

    Concordo plenamente com tudo o que foi colocado. O bairro além de ser muito populoso tem vários autônomos como eu tentando conquistar seu espaço no mercado da maneira como pode e o bairro tem nos ajudado muito com isso, a página do Grupo Meu Bairro Buritis já me rendeu bons clientes e posso dizer também bons amigos.
    De uma forma em geral o que tenho percebido de pouco tempo pra cá foi o número crescente de pessoas que parecem estar ali somente para brincar e ironizar com as postagens alheias. Acredito que nem moradores do bairro são, parecem estar ali apenas atrás dos “likes”.
    Estou e sou eternamente grata a tudo que conquistei através da página que é por sinal muito bem administrada.

  2. Francisco Pimentel 5 meses atrás

    Parabéns pela sua colocação!!!

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