Noite de uma terça-feira de muito trabalho e pouco descanso: 23h40. Acabo de chegar de uma pequena comemoração mísero-burguesa. Dinheiro gasto com as superficialidades dos prazeres momentâneos que bem sabemos necessários, desde que dosados.

Abro o portão. Manobro o carro. Estaciono. Portão fechado na minha proteção. Recebo no moderníssimo celular uma mensagem de uma amiga, contando sobre uma gafe cometida que soou-nos como anedota. Risos e mais risos virtuais me traziam – no meu julgo entender – para perto dessa amiga, como se ela estivesse ali comigo, no carro, sentada a meu lado. Desligo o carro e percebo que uma mulher me observa pelo portão. Maltrapilha. Suja. Visivelmente à margem de tudo e – oxalá eu esteja enganado – à margem de todos: ausência de corpo, ausência de toque.

O portão me separa de um corpo presente à minha frente: essa é a nossa distância. O celular me achega de um corpo ausente do aqui: essa é a nossa aproximação. Silêncio interior:

“ – Ei, moço, boa noite! Sabe o que é? Sinto tanto frio!”

O susto não foi maior do que a surpresa. A dor foi maior que o próprio susto.

E que diabos de dor é essa que eu sinto, capaz de fazer perceber-me de bermuda e regata enquanto pela distância criada pelo portão um ser reclama de frio? E eis que do mesmo frio que aquela ignara criatura se queixou eu comunguei:

“ – Um cobertor velho, moço, o senhor não tem para me arrumar?”

Momento do abismo. É nessas horas que nossa alma sai do corpo e passeia pelo passado, percorrendo histórias, segredos, mistérios que nós nem mesmo sabemos terem havido: o sertão, a seca, a fome, o gado que morre, a chuva que não vem, a água salobra, o pedido de resgate. Me salvo do abismo, quebrando o meu próprio silêncio:
“ – E fome, você não sente?”, perguntei.

“ – Sim, moço, sinto fome, mas a fome não é mais do que o frio”.

Recolhi-me em minha compaixão. Um sorriso sem dentes, um celular. O frio, o “não-cobertor”. A fome, a bermuda e regata. A dor. As dores. A relação estabelecida.

E se eu doo o pão a quem tem fome e água a quem tem sede, não é porque eu tenho dois pães ou água em abundância, mas porque eu, também eu, eu sei o que é a fome e também já experimentei o que é a sede.
Essa noite eu fui vítima de caridade. Devo agradecer a essa mulher cujo tudo desconheço pelo resgate concedido.
Que Deus (se Deus!) olhe sempre pela humanidade.

Amém, pra todos nós! Compaixão, palavra de ordem.

 


Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

0 Comentários

Envie uma Resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

FALE CONOSCO

Envie-nos uma mensagem

Enviando

©2019 Meu Bairro Buritis | Todos os direitos reservados

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?