Opinião: O que podemos aprender com a atual crise? - Meu Bairro Buritis

Estamos vivendo dias complicados. Postos de combustível sem gasolina, supermercados sem alimentos, um verdadeiro caos se instalando. A atual greve dos caminhoneiros, que têm gerado uma enorme crise de abastecimento para diversos setores em todo o país, é a ponta do iceberg. Através dela nós podemos tentar tirar algumas lições e enxergar o problema um pouco mais além.

Muita gente está se dando conta somente agora, da real importância dos caminhoneiros para o país. Mas diversas outras categorias, muitas delas consideradas de “baixo nível” por muita gente, também conseguiriam um impacto profundo no dia-a-dia de toda a população, caso se organizassem e fizessem greve. Como por exemplo os trabalhadores da coleta de lixo urbano. Ou os garis, os motoristas de ônibus, e mais um monte de profissões, todas mal remuneradas e desvalorizadas pela nossa sociedade. Agora imagine que os mais valorizados, aqueles que se orgulham em exibir seus diplomas de pós-graduação, MBA, e cursos no exterior, na parede de seus escritórios chiques, fizessem uma greve. Será que teria o mesmo impacto? Não que eu esteja desvalorizando a parcela mais instruída da população. De forma alguma. Muito pelo contrário. Sou um árduo defensor da educação e da cultura. Só acho que nosso país, e o mundo, tem dado demasiado valor para as coisas erradas.

Segundo matéria da BBC, o Brasil é o país que tem a maior concentração rodoviária de transporte de cargas e passageiros entre as principais economias mundiais. A malha rodoviária é utilizada para o escoamento de 75% da produção no país. É por isso que a greve de caminhoneiros em curso pode realmente parar o país. “Já viu alguém inaugurar ferrovia rapidamente pra ganhar eleição?”,  diz Paulo Resende, coordenador do núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral. “No Brasil, acontece o chamado fator subjetivo, que tem a ver com modelo de gestão de negócios. Os políticos, os burocratas pensam ‘Eu tenho que deixar a marca do meu governo, tenho que fazer alguma coisa nova’. Aí todo mundo que entra [num governo], abandona projetos anteriores e cria um novo, que acha que é melhor. O Brasil é pais cuja estratégia é substituir o velho pelo novo, com completo abandono do velho. Você cria uma descontinuidade de projetos. Há uma questão cultural de trabalhar com curto prazo porque é compatível com a agenda eleitoral.”, completa.

Deu pra perceber? Não importa quem você eleja. O sistema faz com que a pessoa que está no cargo não privilegie as coisas que deveria. Não adianta sonhar com salvador da pátria. Esse é só um exemplo. Como eu disse, é a ponta do iceberg. Tudo fica invertido. Outro exemplo, nosso país valoriza a educação superior. Aqui as universidades federais são as melhores, e dão bolsas e cotas para que todo mundo possa entrar. Maravilhoso. Mas, quem sabe se a educação de base fosse tão boa como a superior, se as escolas públicas fossem do nível das universidades públicas, nem seria necessário sistema de cotas. Aliás, porque diabos alguém que pode pagar uma universidade particular tem que ocupar uma vaga em uma universidade pública, e ter sua educação custeada pelo Estado, que nem consegue dar condição de vida digna pra todos? Aí, pra corrigir o problema, ao invés de melhorar a educação pública de base, o Estado cria cotas. E as escolas públicas continuam sucateadas. Claro, porque corrigir o problema direito levaria muito tempo e não daria pra se gabar disso antes da próxima eleição. Tudo errado!

Tentam te dizer que a solução é você votar mais conscientemente, é você cobrar, se manter informado. Tentam dizer que a culpa é sua por escolher mal. Mas o que adianta se informar para no final votar na opção “menos pior”? Se todos os candidatos são ruins, se o próprio sistema corrompe e só os vendidos conseguem chegar a ser opção, pelo menos nos cargos de mais alto escalão, escolher entre cartas marcadas não adianta nada. Uns dizem que a culpa da crise atual é do Temer. Outros dizem que é da Dilma. O outro quer eleger o Bolsonaro. E começam a brigar e estremecer relações de amizade. Sério, você acha mesmo que vai mudar algo com o político A ou B? Vale a pena brigar com um amigo por isso?

Está mais do que claro que o capitalismo e a democracia representativa chegaram ao fim de seu ciclo e estão numa crise sem precedentes no mundo todo. Não é só no Brasil. Durante algum tempo eles foram o que nossa sociedade conseguiu imaginar de melhor para sua organização política. Nenhum outro sistema conseguiu o mesmo êxito. Na verdade, em geral, quando outros sistemas foram tentados, resultaram em desastres. Mas o mundo vêm passando por muitas mudanças, e essas mudanças ocorrem cada vez mais rápido. A globalização e evolução tecnológica nos trouxeram a um ponto que não permite mais que o mundo permaneça como era antes. É hora de pensarmos em novas formas de nos relacionar, e de viver.

“Ah, mas então o que podemos fazer? Se não importa em quem eu vote, vamos continuar pra sempre nesse buraco, devo ficar sem esperanças?”, você pode me dizer. Bem, não estou aqui pra tentar acabar com as esperanças de ninguém. Você vota em quem achar melhor. O que eu estou querendo propor é que mudemos algumas coisas em nossa vida cotidiana. Ao mudar as pequenas coisas do dia-a-dia, aos poucos vamos causando impacto.

Não tenho a pretensão de dizer que sisema vai substituir o capitalismo e a democracia representativa. Mas o que está em alta hoje entre os mais conscientes de toda essa situação? Economia colaborativa. Código aberto.  Sustentabilidade. Mudança de hábitos. É aí que chegamos ao ponto. O relacionamento com sua comunidade passa de novo a ser essencial nesse novo mundo. Parece uma contradição com a globalização, mas não é. O que este nosso projeto aqui, o Meu Bairro Buritis, humildemente sempre tentou estimular, foi justamente isso. Vamos dar valor ao pequeno produtor local. Vamos dar valor à troca, à colaboração na comunidade. Vamos dar valor a iniciativas sociais ao invés de esperar tudo dos governantes.

Mas muita gente ainda está presa ao sistema vigente. As pessoas estão habituadas ao estilo de vida que sempre lhes foi imposto, incapazes de perceber as mudanças ao seu redor e investir em novas ideias. Ano passado por exemplo, tentamos iniciar um projeto de permutas em nosso grupo do Facebook. A ideia era fazer com que as pessoas trocassem seus próprios serviços e produtos, sem usar dinheiro. A intenção era começar no Facebook pra sentir a receptividade e depois, caso desse certo, expandirmos para um website proprio, no estilo ecommerce, porém somente com as trocas. Infelizmente o grupo não comprou a ideia, tivemos pouca adesão e precisamos abortar o projeto. Obviamente não estamos falando pra ninguém largar seu emprego remunerado, fechar suas contas no banco e ir morar numa cabana na floresta. Também vendemos espaços de anúncios para poder viver. Ainda precisamos de dinheiro. A mudança deve acontecer aos poucos. São iniciativas como o Uber, o Airbnb, o Mercado Livre. Comece a fazer a separação do seu lixo para a coleta seletiva. Compre o bolo da vizinha ao invés do lanche no McDonalds… percebe?

As pessoas parecem presas a velhas fórmulas. Preferem continuar pagando taxas e juros que enriquecem políticos corruptos e banqueiros bilionários. Preferem continuar valorizando leis, burocracia e impostos ao invés de educação, valores morais e projetos sociais. Preferem continuar valorizando grandes marcas que utilizam mão-de-obra onde for mais barato, mas vendem produtos com preços exorbitantes. Preferem continuar dirigindo seus carros de luxo, comprado a prestação, e pagando 5 reais o litro de um combustível que os torna dependentes e ainda polui o ar que respiram. Que tal sair da poltrona? Que tal ousar? Que tal pensar fora da caixa? E rápido, antes que o sistema te engula. Aliás, que mundo você vai deixar pros seus filhos?

 

 

 


Leonardo Orrico
Publicitário, entusista das redes sociais, administra o projeto Meu Bairro Buritis junto com sua esposa e seus seis gatos, tentando fazer sua parte para um mundo melhor, começando pelo seu bairro. 

 

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