Diz a lenda que tem gente que gosta. Eu detesto. Acho esse biscoito “papa-ovo” uma fraca variação de “biscoito de polvilho”. Na verdade, nem sei se tem polvilho. Tem. Acabei de procurar no Google. Leva fubá, polvilho e, claro, doze, eu disse DOZE ovos. Papa-ovo. Bom nome para um biscoito cuja receita leva muito ovo.

Sento para escrever a crônica e lá vem o “carro da pamonha que está passando na sua rua. Pamonha fresquinha. Pamonha saborosa. Pamonha quentinha. Venha ver que delícia de pamonha. Pamonha. Pamonha. Pamonha. Temos também o mingau de milho verde. Mingau saboroso. Mingau fresquinho. Venha ver que delícia de mingau“.

O danado do “carro da pamonha” desce a José Hemetério Andrade como quem caminha para a morte: de-va-gar  qua-se  pa-ran-do. Acho até que o motorista é meio pamonha. E acho até que o encontro da “Zé Hemetério” com “Mário Werneck” soa mesmo como morte. Pelo menos foi assim para aquela casa de festas que entupia a rua de motoristas que estacionavam nos dois lados da rua aos finais de semana [*]. É o fim!

Mas deixa eu voltar ao papa-ovo! Tem gente que procura cabelo em ovo. Tem gente que acha pente de ovo. Tem gente que vende um pente de ovo, com trinta ovos, por dez reais. Pense a cena: Ela, uma mulher de seus 40 anos. Alta. Cabelos compridos, amarelados pela ação de sua vontade. Gente boníssima! Amiga da minha família há anos! Sempre com sorriso no rosto e disposta a nos fazer rir. E não é que ela se depara com o “carro do ovo”? “Olha o carro do ovo! Olha o ovo! Legítimo ovo caipira com a gema amareliiiiiinha amareliiiiinha.  Ovo olha o carro do ovo. O pente com trinta só 10 reais! Gema amareliinha, amareliiiinha“.

Promoção tentadora, né? Pois é. Ela também achou. Tanto achou que comprou. Um? Não. Dois? Não! Dez? Não! Gente… parece história de pescador: ela comprou cem. Isso mesmo: 100! Não foram 100 ovos. Foram 100 reais em ovos, ou seja: 300 ovos! Certo. Vai ver ela queria fazer muitos quindins, ou sopa de ovo, ou ovo com pão, ou omelete… nada disso é da nossa conta! Mas é engraçado o que vem depois: 300 ovos na geladeira e sua sensação de que “valeu a pena o investimento“.

Pense na cena seguinte: Ele, um homem de também seus 40 anos. Alto. Cabelos curtos e com sua sede. “Sede de cerveja”. Eu já senti esse tipo de sede e sei o quanto ela vai aumentando à medida que a gente vai tomando a danadinha. O resultado? Ele chega em casa soluçando “hic hic” sua embriaguez. Na larica da madrugada, resolve desvirginar aqueles dez pentes de ovos. Seria ilusão tantos ovos? Seria efeito da embriaguez, visão turva, multiplicação do alimento? Acreditou que um só ovo frito seria suficiente para aplacar sua fome. Acreditou que estaria retirando apenas um ovo da geladeira. Mas não: tirou 300! Simplesmente fez-se cair sobre a geladeira, derrubando 300 “embriões de pintinhos refrigerados“.

Ironia do destino. Cheiro de ovo. Gema e clara. Casca. Puta, no sentido mais puro da palavra, e com sua implacável vontade de “papar-ovo”, ela se vinga: antes mesmo de eliminar a catingueira advinda da tragédia que matou centenas de “piu-pius“, ela escuta o carro do ovo passando novamente na sua rua. Corre lá e compra mais 100. Não foram 100 ovos. Foram 100 reais de ovos. 300 ovos!!! É muito cu botando ovo, né, gente? Ainda bem que está barato!

* Para quem não mora no bairro Buritis: Essa semana uma tradicional casa de festas que fica no cruzamento da “José Hemetério” com “Mário Werneck” encerrou suas atividades. Uma metáfora de “morte”.


Bruno de Assis Freire de Lima
é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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