Parente ou serpente?

Parente ou serpente?

Diz a sabedoria popular que o vizinho é o parente mais próximo. No melhor dos mundos, aquele indivíduo que coabita o mesmo espaço que você é um anjo da guarda que te socorre nos apuros e vice-versa. É com quem você tem liberdade de pedir uma xícara de açúcar quando falta algum ingrediente no meio da receita. É quem trata bem seu filho ou tolera seu pet. É aquele que tem uma caixa de ferramentas completa com a chave inglesa no número exato para ajustar a sua mangueira de gás… Mas quando o avesso disso se instala e o parente vira serpente é pra lá de desagradável. Não tem para onde correr e a convivência pode ficar pesada. 

Mas como ser agraciado com uma boa vizinhança? Naturalmente você tem que fazer por merecer. Ninguém precisa ser o mais popular do prédio ou da rua, mas andar de cara amarrada ou fingir que não está em casa quando o vizinho toca a campainha também não vai te favorecer. Existe um componente, porém, que é imponderável, que vem do acaso. Você pode dar uma tremenda sorte de habitar um espaço com pessoas de bem com a vida, descomplicadas. Do mesmo modo, a roda da fortuna girar e você viver um infortúnio.

Anos atrás, recém-casada, fui morar no Coração Eucarístico. Levei na mala aqueles sonhos de quem tem um mundo novo pela frente.  Vida nova, apartamento novo, novos vizinhos. Na primeira semana, quando ainda me acostumava com todas as novidades, meu então marido começa uma briga homérica com o vizinho de cima, por causa do volume da TV. A discussão rendeu dias a fio, com ofensas do 202 para o 302 e vice-versa. No fim das contas os dois bicudos se acertaram, mas foi um começo tão conturbado que tirou parte da graça daquela vida que estava começando.  

Em contrapartida, aqui no Buritis tenho o privilégio de os vizinhos serem fantásticos. Meu edifício é bem pequeno, apenas seis apartamentos, mas a harmonia reina aqui. Imagina que meu vizinho do apartamento de cima um dia me perguntou se ele me importunava com algum barulho. Eu até olhei para trás para conferir se ele estava falando comigo mesmo. Logo eu que tenho um doguinho que adora latir para os visitantes e faz isso bem debaixo da janela dele. Outra moradora é professora de balé e, com a pandemia, tem dado aulas online. Preocupada, perguntou, no grupo de whatsapp do prédio, se as aulas estavam perturbando. Que nada, eu adoro passar pela porta dela durante as aulas e fico até ensaiando uns passos do corredor, me sentindo a própria bailarina. E tem minha vizinha de frente, uma amada que me manda torta de aniversário, que borda toalhinha e dá de presente de Natal, que faz bolo de maçã e me entrega uma fatia assim que sai do forno…

Felicidade completa? Claro que não, né? Dentro do meu prédio um oásis, mas no edifício ao lado…churrascos que varam a madrugada, com discussões acaloradas e um violeiro desafinado, mas que canta a plenos pulmões. Estamos no meio de uma pandemia e recomenda-se isolamento social, mas no vizinho ao lado a vacina já foi descoberta e ele e seu grupo de familiares e amigos festejam a vida, como se o mundo estivesse na mais perfeita ordem.

Infelizmente, são recorrentes as queixas de festas e comemorações dentro dos apartamentos no Buritis, perturbando o sossego de quem mora ao redor, antes e agora que o coronavírus se instalou em quase todos os cantos do mundo. Claro que não sou contra a alegria, as confraternizações, mas podemos nos conter neste momento em que, afinal, não há nada para comemorar. Pelo bem comum, em respeito às milhares de vítimas do covid-19 e para evitar que mais pessoas se contaminem, podemos adiar um churrasco. Não é o desejável, mas podemos fazer uma comemoração mais singela, usar as tecnologias que nos aproximam virtual e não fisicamente e soltar as feras quando houver, sim, a tranquilidade de um novo tempo.

E por falar em novo tempo, como estaremos quando essa nova fase chegar? Em relação aos nossos vizinhos, estaremos mais para parente ou para serpente? Tento ser otimista, mas um episódio, em especial, me faz pensar que as serpentes podem ganhar essa corrida. Há poucos dias soube que tem um morador incomodado com algumas amigas protetoras animais que fazem um trabalho lindo, alimentando cães que vivem em uma mata do Buritis. O local é de difícil acesso e elas têm que colocar água e comida pela tela que protege a mata. Os bichinhos são selvagens, se não houver esse movimento, vão morrer de fome e sede. Tudo ia bem até que apareceu esse vizinho serpente da mata, incomodado com aquela balbúrdia. O cidadão alega que aquilo atrai outros cães para a mata e que a cachorrada não o deixa dormir. Ele, se sentindo o dono do quarteirão, tem boicotado o trabalho, no melhor estilo, “se isso não acabar, a cobra vai fumar”. E minhas amigas? Ah, essas queridas não se abatem. Elas continuam firmes, encontrando alternativas para driblar essa serpente e alimentar os peludos. Entre minhas amigas e o vizinho serpente não é difícil imaginar quem vive de bem com a vida.



Fernanda Castro
é jornalista, mestre em Educação e especialista em Linguagens, Tecnologias e Ensino. É moradora do Buritis e fundadora do grupo de proteção animal Buri Dogs.

Meu Bairro Buritis

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