Quero humanizar as relações. Sei bem que tem gente que pouco se importa com isso. Gente que acha que o atendente da padaria está ali apenas para te atender. Gente que mal sabe que por trás daquele uniforme branco, que põe todos que o usam na mesma condição, há pessoas, com histórias de vida. Histórias de afeto. E isso se espalha por qualquer relação por aí afora: professores e alunos, motoristas e passageiros, balconistas e fregueses, locadores e locatários… a lista é imensa. Sei também que tem gente que acha que temos mesmo que desumanizar as relações. O que deve prevalecer entre os homens são as relações objetivas que as funções sociais lhes impõem. Será que tem de ser assim?

Entro no Uber com a vontade de praticar a humanização das relações. O fato de esse meu desejo ser consciente não me confere nenhuma “luz especial”. Talvez até traga as trevas. Talvez seja até as próprias trevas. Esse delírio chamado consciência… Meu trajeto, Buritis-Savassi, torna-se preciso nas imagens do aplicativo: pagarei, pela corrida que ainda nem fiz, $17. Francisco. Já sei o nome do motorista muito antes de ele tomar o rumo certo de meu ponto de partida. Viro-me para ele com o velho e tradicional instrumento “quebra-gelo”, o “Boa noite”. Coloco, como um pescador espeta a minhoca no anzol, alguns penduricalhos na minha fala. Lanço a isca: “Boa noite, tudo bem? Estamos indo para a Savassi”. Fui tomado por um susto que me interrompeu a fala quando vi aquele homem sentado ali ao meu lado, trabalhando na “boca da noite” de sexta-feira. Eram 20h, as cervejas do final de semana me convidando para alguns goles, e aquele senhor de seus 70 anos, cabelos (muito) grisalhos, aparência de cansado. Aparência de gente que trabalhou desde sempre, desde menino, para… sobreviver.

Eu precisava sair daquele susto inicial e prosseguir com minha tarefa de buscar o lado humano das relações, que já estava ali, posto à mesa no volante de Francisco, com o controle de nossas vidas em suas mãos. Francisco mal teve tempo de responder meus cumprimentos, eu, já curado do susto inicial, prossegui com a interação: “Seu Francisco, o senhor já levou muitos bêbados hoje por BH?” Francisco me responde como ser educado que devemos todos, iguais a ele, ser. Morde a isca do meu anzol interativo e conta-me a sua história, de menino nascido no interior e criado na cidade grande. Ouço, com a atenção que lhe devo, todas as palavras que aquele homem, com alguma dificuldade, articula. Voz embargada nas lembranças de sua vida. Nó na garganta das emoções que aquele corpo velho e aquele carro transportam.

A viagem transcorre tecnicamente como deveria: Mário Werneck-José Rodrigues Pereira-Raja Gabáglia-Nossa Senhora do Carmo-Cerveja. A minha cerveja, não a dele. Francisco não podia tomar cerveja. Seus rins não funcionam. Batalha, duas vezes, pela sobrevivência: filtra as viagens, filtra o sangue, permanece. Prego furando pedra, que sonha com britadeira. Três vezes por semana gasta 4h nas cadeiras da hemodiálise. O restante do tempo ele vive… dirigindo. É assim que sobrevive: nas agulhas, que lhe furam a pele enrugada; e no volante, que lhe proporciona o pão que lhe sustenta e o teto que lhe cobre.

É claro que essa história não é só isso. É claro que essa história não é bem assim. Não importa o que aconteceu depois daquela viagem. O que importa foi a vontade de seguir, ao lado daquele senhor, ouvindo suas dores e suas esperanças. Despeço-me com um reiterado “Boa noite”. Amanhã é sábado. Não tenho hora para chegar em casa. Não tenho hora para acordar. Amanhã é sábado. Francisco não tem hora para chegar em casa. Francisco tem hora de acordar (cedo). Seu sangue será filtrado por mais 4h na cruel esperança de permanecer, ainda que com dor de tal rotina, entre nós. Eu não humanizei a relação. Francisco, sim. Mundo tão desigual. História real, ficcional.

 



Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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