Saio com o frio que está fazendo em BH. Há quem diga que exagero: cachecol e gorro de lã. Casaco grosso e calça comprida. Aliás, comprida como minha barba. Um típico “elemento suspeito”. O objetivo é dar o “passeio longo do dia” com os cachorros. Algo em torno de 40 minutos: subo a José Hemetério, desço a Laura Soares Carneiro, aquela mesma onde “um prédio desabou”, lembram? Acho até que ficou por isso mesmo. Será?

Levo os cachorros na coleira. Aqui no bairro tudo é incrivelmente louco: muitas pessoas se detestam, mas a maioria, senão todas, gosta de ou tem cachorro. Somos uma comunidade de pessoas e cachorros. São eles quem estabelecem algumas regras aqui no bairro. No final das contas, tem banheiro e território para todos eles, apesar de todas as controvérsias quanto o assunto é “cocô”, desde os “sacos de bosta” penduradas nos muros da Líbero Leone, até os “cacos de bosta” espalhados pelas calçadas dos nossos passeios diários: tudo é bactéria nessa BH de muito frio e pouca chuva.

Ando com os cachorros observando a tudo e a todos que estão ao meu redor, inclusive os próprios cachorros. Hoje, mais cedo, encontramos duas senhoras que quiseram brincar com eles: sem sucesso. Latiram, ameaçaram morder. Elas deviam ter por volta dos seus 70 anos. Uma delas, rindo, tomou seu caminho de origem dizendo: “É como eu costumo dizer: mulher pequena e cachorro pequeno não brincam com qualquer um”. Saiu dando risada.

Mas vou voltar ao que me motivou a escrever esse texto: 17h30 de um inverno rigoroso. Eu, com frio, sujeito estranho naquele momento em que a natureza baixa a sua guarda: a troca de turno, quando o dia está fazendo noite ou a noite ainda se faz dia. É o que se chama de “lusco-fusco”. Veja que palavra estranha: lusco-fusco.

De longe vejo uma típica mãe. Sacola de supermercado em ambas as mãos, uma mochila de criança pendurada em um de seus ombros e, claro, uma criança. A mulher está à frente da filha, com passos apressados e longos. A filha está andando depressa, tentando alcançar a mãe ou, pelo menos, diminuir a distância que as separa.

A mulher percebe a aproximação desse homem suspeito na rua, a quem chamo de “eu”, e olha-me com a surpresa primeira de quem é desconhecido e que por isso sente medo. Saco de bosta nas mãos. Apreensão. Os cachorros ficam agitados, notando que a mulher se sentia ameaçada pela cena que via e à qual pertencia.

Os cachorros finalmente colocam sua visão na menina. Eu observo essa mudança de experimento e também focalizo a menina. Ela ameaça andar mais devagar. Deve ter seus 5 ou 6 anos. Dobra levemente os joelhos, continua caminhando, e coloca a sua mão na altura do focinho dos meus cachorros, que retribuem com um beijinho (ou lambida, como preferirem). A menina sorri e corre adiante, na tentativa amarga de alcançar a mãe.

Saco de bosta no lixo. Todos se entendem com um sorriso.

 



Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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