O que mais tem pelo bairro é cocô. Cocô de todo tipo: pequeno, grande, fino, grosso, loiro, marrom, opaco, brilhante, com milho, cenoura. Cachorro cagão, dono sem educação. Os de mais fé acreditam que um dia esse comportamento será banido de nossas ruas. Os mais céticos pensam que o problema poderá, talvez, ser amenizado. Fato é que não podemos ficar esperando soluções. Temos de cria-las.

Uma placa na José Hemetério Andrade. Sim, aquela rua do Colégio de nobres jovens que vez ou outra entram entre a relva da rua – espaço verde que também reside aqui – para puxar a erva. Nos dois sentidos da expressão: alguns se dependuram em jovens árvores, comprometendo a integridade da erva; outros se dependuram em cigarros mal-feitos, puxando aos pulmões a erva. E o cocô ali, no meio deles também: tudo natural.

“Vamos criar uma placa!” – e assim fizemos, alguns donos de cachorros, desses que se dizem mais higiênicos a ponto de saírem de casa com sua própria “sacolinha de mercado cata-bosta”. Ótimo. Os dizeres: “Não deixe que seu cachorro fique mal falado na rua: recolha suas fezes!”. Recado dado. Placa devidamente afixada ao lado de uma grande lata de lixo que há nesse espaço verde. Parece que agora vai! O tempo dirá.

Outro dia saí de casa de manhã e avistei uma novidade na rua: um Golden lindo, cachorro que não é frequentador regular daqui. Pelos brilhantes, de um amarelo quase ouro, de dar inveja a muita gente que anda por aí com os cabelos descoloridos. Um verdadeiro exemplar. Eu estava em uma das pontas da calçada, lugar onde chamaria de “pé do espaço verde” com meus dois amigos caninos: o Dudu e o Juliano. O Golden estava exatamente em frente ao local onde hoje reside a placa. Na outra ponta da calçada, ou na “cabeça do espaço verde”, estava uma vizinha do grupo dos higiênicos com a sua cachorrinha, a Nina. O Golden estava cercado pelo olhar cuidadoso dos que estavam tanto ao pé quanto à cabeça do espaço verde.

Como cachorro não manda no próprio trazeiro, o Golden abre as pernas delicada e vagarosamente, levando suas ancas em direção ao chão. Abre-se deliciosamente em sua cagada matinal diante dos nossos olhares vigilantes. A dona, que não sabia onde enfiar a cara de tanto constrangimento, não retirou a sua sacolinha, simplesmente porque não havia sacolinha entre seus pertences. Felizmente a Nina tinha um saquinho – que não foi solicitado, mas oferecido à dona cagona do Golden. Agora a visitante do grupo dos não higiênicos tem a placa para ela se lembrar da importância de se recolher o que é seu.

Mas foi a placa que me motivou a escrever este texto. Volto a seus dizeres: “Não deixe seu cachorro ficar mal falado na rua: recolha suas fezes”. Placa fixada, foto devidamente registrada. Publicação feita no grupo do bairro. Pessoas comentando, curtidas recebidas, tudo em ordem, até que alguém questiona essa “nossa Língua Portuguesa”, dizendo que a placa possuía mais de um sentido: “A pessoa pode ficar sem entender se recolhe as fezes do cachorro ou se recolhe as próprias fezes, porque o “sua”, da placa, pode se referir ao cachorro ou ao dono do cachorro” – argumentou o internauta.

A resposta veio rápido: é claro que isso não é possível. O contexto de uso da placa é bastante situado. O “sua” só pode se referir às fezes do cachorro. A não ser que o dono do cachorro resolva cagar no espaço verde da José Hemetério Andrade. O que talvez não seja de tudo impossível, mas aí é outra história. É caso de internação em hospício. Zelemos pelo espaço público, mesmo que para isso seja necessário olhar o cu de cachorros alheios.

 

 



Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

1 Comentário
  1. José areal 6 dias atrás

    Não é de hoje que eu elogio o trabalho, mas hoje, particularmente você foi preciso como um cirugião!!

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