Saio da aula apressado. Preciso ganhar tempo para não perder tempo. O relógio acabou de dar 17h30 e a professora nos liberou! O trânsito aqui nessa cidade é terrível, e esse é o pior de todos os horários. Qualquer minuto mais cedo é negócio para vencer o temido “Anel Rodoviário” em fim de tarde, até chegar no Buritis: atravessar a cidade.

Entro no carro, sento no trono. Ali sou pleno senhor dos meus pensamentos e das minhas ações. Ligo o carro, feliz. Tudo parece fluir contra o congestionamento. Um ou outro estudante passeando pela UFMG, fim de tarde com jeitinho de uma chuva que não vem, e eu, contemplando a desejada fluidez do transporte terrestre sobre quatro rodas.

Eu estava enganado. O engarrafamento estava lá, me esperando. Eu nunca acreditei muito nessa história de “aceita que dói menos”, mas tem hora que é necessário aceitar. O jeito era ligar o rádio, tomar um gole d’água, tirar meleca. Essas coisas que a gente faz sentado sozinho no trono.

Sintonizo a rádio. É uma rádio POP com um programa sobre relacionamentos e coragem (e um tanto de outros atributos). Funciona assim: o casal briga. Fica de mal. Trai. Separa. Magoa. Faz rir. Faz chorar. Um dos dois resolve – sem que o outro saiba – ligar para o programa, que tem o nome de um famosíssimo seriado da década de 80. A pessoa senta no trono da sua casa, do seu trabalho, do seu carro, pega o telefone, liga, expõe seu relacionamento, são senhores plenos do centro das atenções. Os locutores dão conselhos baseados nos baseados, tocam uma ou duas músicas “direto das paradas de sucesso”, sentadinhos nos seus tronos de comunicadores. Na sequência, ligam para o parceiro que teoricamente não está sabendo de nada e colocam o casal para conversar ao vivo, na aclamada “DR” (Discussão de Relação). E dão conselhos, e choram, e riem, e fazem piadas. Bem mesmo o que o mundo quer: todo mundo sentadinho no trono.

Papo do dia: Ele um cara “super apaixonado pela namorada, amiga, amante, esposa, companheira, sócia” (palavras dele na conversa inicial com os locutores). Ele mora em Sabará e ela mora sabe onde? No Buritis! Até aí tudo bem. Nada que cause espanto: no Buritis tem gente a dar com o pau, como dia minha avó. É natural que pessoas estejam “na mira” de um programa como esse, sobre relacionamentos. O problema é o seguinte: sábado foi aniversário da Carla (namorada do Fábio) e ela fez uma “reuniãozinha” para os mais queridos, aqui no bairro. Acontece que na sexta, Fábio veio em Belo Horizonte e passou pelo vendaval chamado “Praça Sete” no auge do sol de meio-dia, tropeçou e caiu. O pobre, que já tinha uns problemas no joelho, faz o favor de quebrar o pé, na véspera do aniversário da amiga-sócia-amante-etc. Não teve escolha. Precisou ficar em casa, sentado no trono, esperando dias para o pé melhorar. Não veio no aniversário da Carla e queria pedir desculpas ao vivo para todo o Brasil. Legal de intenções, pega o telefone e liga. Ele conta a sua história. Os locutores fazem perguntas. Tocam as melodias juvenis e eles voltam a conversar. Os locutores ligam aqui para a casa de Carla para propiciarem a “DR”. O telefone toca. Atende uma voz feminina:

— Alô.
— Alô, por favor, a Carla está?
— Não, ela não está. Quem gostaria?
— Aqui é do programa de nome de seriado vintage! Eu precisava falar com a Carla.
— Olha, ela não está e eu não tenho autorização para dizer aonde ela foi.
— Geeente! Mas como assim? Por acaso a Carla é bilionária para poder ser sequestrada?
— Sim, a Carla é rica. Foi escolhida para sentar no trono.
— Ó! Eu também quero sentar no trono!
— Sim, você também pode ser rica e sentar no trono, mas tem que mudar sua vida!
— Como assim mudar de vida? Você acha que eu tenho que mudar de vida?
— Todo mundo tem o direito de mudar de vida.
— Eu, hein! Que papo chato! Então uma pessoa que é legal deve mudar e ficar chata? Quem é que está falando?
— Meu nome é Arlete.

Desliga o telefone.
Fábio, o namorado, amigo-amante-sócio etc etc, só não sabia onde enfiar a cara porque não dava para ver a cara dele, mas o seu tom de voz revelou toda “sem-gracisse” em que ele se encontrava… Começou a pedir mil desculpas, mas na segunda desculpa foi interrompido:

— Não, não, não! Calma lá! Nós vamos ligar de novo.
Pequena pausa para angústia dos três toques.
— Alô, é a Carla?
— Sim, sou eu.
— Aqui é do programa vintage e tem uma pessoa que quer falar com você.

Fábio na linha com Carla. Carla na linha com Fábio. Trocaram carícias por telefone. Falaram palavras doces, meladas, cheias de ternura. Se algum ingênuo-boboca ouvisse a conversa, ia até chamar a prosa de poesia.
Fico pensando nessa história. O que mais há por aí é gente sentada no trono, mas as que não estão ficam se condoendo. E você, Arlete? Já sentou no seu trono hoje? E você, vizinho? Já pensou que Arlete pode estar aí, sentadinha do seu lado? Eu hein!

 



Bruno de Assis Freire de Lima
é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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