Colunas, Crônicas (Bruno Lima)

Suspeitos flagrados à noite nas ruas do bairro

Alta noite sobre nossas cabeças. Marco Aurélio de Miranda soprando levemente vento frio sobre o que ainda está perambulando por suas calçadas. O relógio se aproxima das 23h15. Pelas ruas do bairro, solitários motoboys interrompem o silêncio na “busca pela entrega” das últimas laricas da noite. Elemento suspeito que sou barba, recebo minha parcela de vento frio-facial. Por uma fração de segundos, assusto-me com o vulto que vejo entre os arbustos que ornamentam as calçadas durante o dia, mas que servem de camuflagem para os perigos da noite. Coração disparado, aperto meu olhar, fechando delicadamente as pálpebras na tentativa ousada de distinguir o que me amedronta. Estratégia funciona: balões de festa foram amarrados em uma lixeira. Os balões bailavam no movimentar do vento, elemento suspeito que era vulto.

Silêncio se quebra novamente. Pouco mais à minha frente, estaciona um elemento suspeito que era motoqueiro. Havia diante de mim a iminência do assalto ou da entrega de pizza, elemento suspeito que era refeição. A certeza daquela probabilidade causava ainda mais temor à cena. O motoqueiro desce e caminha em minha direção. Entre nós (ou nós entre eles!) prédios altos com aparente segurança. Ele põe sua mão no bolso na tentativa de alcançar algum objeto, elemento suspeito que era um revólver 38. Felizmente saca seu celular do bolso e rapidamente faz uma ligação. Corações disparados! “Alô! Sua pizza chegou”. Fala (ou grita) em alto e bom tom, como alguém que pede socorro por também se sentir ameaçado. Alivia-me a respiração, elemento suspeito que era infarto.

Caminho até o final da rua aparentemente deserto. Chego até a academia popular que nunca é frequentada por nenhum popular. Elemento suspeito que é desvio de dinheiro público. Na extremidade superior daquele espaço, um homem mija de costas para mim. Elemento suspeito que era embriagado, alivia-se do líquido que alivia suas dores e angústias. Enquanto isso, a alguns metros de nós, o cão Pug daquele homem permanece estático, observando a minha movimentação no cenário escuro, elemento suspeito que era mistério. O Pug evita latir, possivelmente para não quebrar a suposta harmonia daquela noite. O silêncio impera. Com movimentos precisos e suaves, todos saem de cena rumo a seus destinos, elemento suspeito que era lar.

Retorno pela Marco Aurélio de Miranda. O vento frio agora insulta-me pelas costas. Avisto ao longe uma pessoa que vem ao meu encontro, no descompasso de quem não caminha em linha reta. Elemento suspeito que era droga, trajeto sinuoso que traça com seu caminhar. Em alerta, fico observando a aproximação que se junta a um pequeno canto saindo daquela voz também pequena, elemento suspeito que era desafino: “Des-pa-ci-to / Quiero respirar tu cuello despacito / Deja que te diga cosas al oido / Para que te acuerdes si no estás conmigo”. Seu cambalear era dança. Sua dança era sua estratégia para não se sentir ameaçada naquela noite de tanta suspeição: fones de ouvido, elemento suspeito que era louca, cantava e dançava na boca úmida da madrugada.

José Hemetério Andrade. Inicio a subida até minha casa quando, a poucos passos de chegar ao portão, meu cachorro mais novo resolve fazer seu cocô, após mais de 20 minutos de caminhada noturna, aquela caminhada do “xixizinho antes de dormir”. No prédio em frente ao cagatório canino, uma mulher ameaça sair à rua. Me vê entre os arbustos. Eu, que não sou balão, tampouco bailo despacito, torno-me novamente elemento suspeito, barba noturna que cultivo. O cachorrinho cagando poderia ser minha inocência, mas a mulher ameaçada não alcançou o pobre animal com o seu olhar confuso pela possibilidade de ser violentada.

Esperar o cachorro terminar a obra, elemento suspeito que é cagão, para, educado que sou, recolher o que me é de obrigação. A mulher lê a minha espera como uma possível “persistência de assaltante” que calma e silenciosamente aguarda por ela. Com medo de causar ainda mais insegurança nessa noite, olho apenas de soslaio para o ponto onde ela está. Ali já se encontra o porteiro dando ouvidos a suas queixas, que certamente denuncia a minha presença. Cocozinho terminado. Homem suspeito agachado, cata-bosta que sou, termino meu passeio noturno com os cachorros. Sento no computador e escrevo o texto, elemento suspeito que é crônica. Só me resta agora, no novo dia que já se anuncia, me atirar ao sono que me seduz: elemento suspeito que é descanso.

 



Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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