Penso que ainda é cedo. Olho para o celular no quarto ainda escuro e vejo as horas: 8h23. Com preguiça, é hora de levantar da cama. Sinto que terei um resto de manhã com algum mau humor. Lembro-me de que é sábado, e de que o senso comum diz que nisso deve haver algum motivo de felicidade e por isso sorrio ao me “espreguiçar” na cama. É hora de me pôr de pé.

Cumpro com as minhas primeiras missões do dia: banheiro, passeio pelas ruas do Buritis com os cachorros, visita à cozinha para o modesto gole de café preto. Finalmente sento para olhar o que me reserva o dia e um ex-aluno me chama no bate-papo virtual:

“Bruno! Quanto tempo, tudo bem? Me diz uma coisa: há algo de errado na frase: “Sede perfeitos como essa cadeira é perfeita?” Mais do que depressa, e na mesma hora, pensei (e falei!): “Puxa vida! Só se lembram de mim quando precisam!”

Não esperei o rapaz se desculpar e fui logo levantando mil hipóteses sobre a pergunta do dia: o cara tinha sido meu aluno, estava com dificuldade em compreender esse “Sede” aí, que é do verbo “ser”. É universitário. Foi aprovado em vários concursos, tinha formação técnica… e não entendeu a frase. “Ele deve ter visto isso na igreja” – pensei! Lugar típico para o uso do “Vós”.

Expliquei a ele o que havia de dificuldade gramatical na frase (uso da segunda pessoa do plural, “Imperativo afirmativo” do verbo). Em linguagem atualizada, a frase seria mais ou menos assim: “Ow, vocês aí, tratem de ficarem certinhos, igual essa cadeira aqui, cambada, senão coloco todo mundo no inferno!”.

Se esse meu ex-aluno, que passou por várias etapas de ensino, teve dificuldade na compreensão, imagina aqueles que frequentam as igrejas, mas que estão fora ou nunca estiveram diante de um sistema de ensino da “língua erudita”?
É certo que não compreendem o que quer dizer a frase: “Sede perfeitos como essa cadeira é perfeita”. Muitos, inclusive, devem entender “Sede” como substantivo (aquela coisa que a gente sente quando quer muito beber água).
O que está em jogo não é apenas saber ou não conjugar o verbo “ser”, mas compreender um uso como “sede vós”. Essa forma verbal não faz parte da língua usada por quem frequenta as igrejas. Aliás, não faz parte da língua usada por quase ninguém. (Talvez só por aquele tal de #ForaTemer!)

As igrejas deviam ficar mais espertas. Estive na missa há alguns meses, depois de muitos anos sem ir. Fiquei assustado: eu sabia a ordem da missa, as falas e alguns cânticos, inclusive. Nada mudou! (Nem a minha memória, ainda bem!) Missa de domingo, catedral tradicionalíssima em Belo Horizonte: quase vazia.

As igrejas não se renovam. Os ritos permanecem os mesmos e, o que é pior, a linguagem permanece a mesma. É necessário se fazer entender. Que tal a frase: “Vamos, todos, buscar a perfeição em nossas atitudes?” Muito mais verdadeira, muito mais simples, muito mais inclusiva.

É claro que eu conversei com o ex-aluno sobre todas essas reflexões. Antes de nos despedirmos, ele disse, agradecido:

“Ah, Bruno, e pensa pelo lado positivo: pelo menos você é lembrado, tem ex-professor que a gente esquece mesmo!”
Só mesmo rindo para espantar o mau humor.

 



Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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