Colunas, Crônicas (Bruno Lima)

Vícios

Rua José Hemetério de Andrade. Da minha janela vejo um pequeno espaço verde, com árvores de pretensão frutífera. Tem um pezinho de manga por lá. Alguns troncos podres caídos por entre a verde paisagem servem como banco para imaginários casais de namorado se esfregarem. Ledo engano. Por ali há cocô de cachorro em quantidade que daria para alimentar uma tonelada de lombriga desavisada. Também tem uns “cocôs” em formato de amendoim japonês, aquele que a burguesia gosta de comer enquanto toma cerveja. O amendoim, é claro! Mas esse “cocô gourmet” é a garantia de que por ali passam animais silvestres. Eu diria “porquinhos-da-índia”, também conhecidos como “preás”. Os cachorros, todos, viciadinhos naquele verde com cheiro de urina impregnada na poeira seca desse inverno sem fim.

Eventualmente um pequeno grupo de jovens se junta por ali para fumar maconha. Cheiro da hipocrisia viciosa se espelha entre o verde. Da minha janela ouço risos e avisto fumaças. Não sinto nenhuma insegurança até a ocasional chegada da polícia. Daria até para filmar a cena, colocar no YouTube e alimentar outro vício que corre solto por aí: as redes sociais e os vídeos de flagrante. A chegada da PM por ali parece até coisa de “fofoca de vizinho”. Talvez a senhorinha do prédio ao lado, aquela mesma que adora ir à igreja todos os domingos, no mesmo horário, como seguindo um ritual todo humano e todo sagrado que a vicia e que dá a ela o aparente direito de julgar o outro, sinta “cheio de drogas” e resolva ligar para o 190. Ou talvez a polícia estivesse só fazendo o trabalho dela: perseguir jovens com seus “Cigarrus Cannabis”. Ou não. Sei lá. Nem importa. O lance é que tem muita gente viciada por aí afora, e que muitas vezes nem se dá conta disso. Veja só este caso:

Estou indo para meu trabalho, que fica a alguns quilômetros de Belo Horizonte. Vou dirigindo como a vaca que caminha ao matadouro, no tédio nosso de cada dia. Repetitiva labuta para pão que nos sustenta. Pelo menos levo um querido colega comigo, o caroneiro do dia. Vamos conversando por entre carros e ônibus apressados. A viagem se tornaria menos extensa, não fosse seu pedido para que eu parasse em um dos postos da “BR-040”, pelas alturas do Jardim Canadá. Como bom e modesto colega que sou, parei. O motivo? Ele queria um cafezinho preto, plenamente justificável para o horário: 6h30 da manhã. Mas ele também queria comprar cigarro: combustível para sua sobrevivência, dizia ele.

Fico no carro esperando por ele, que se dirige ao “Serviço de Conveniência” do posto. É até engraçado pensar que cigarro é uma conveniência, tão inconveniente que é o cheiro da sua fumaça ou mesmo o gosto de cinzeiro nas bocas beijadas pelas baforadas de madrugadas afora. Da janela do carro observo uma senhora que espera por alguém. Ela beira seus 70 anos. Usa blusa de tricô cinza. Mangas compridas. Calça jeans. Fuma freneticamente um cigarro enquanto aguarda por uma pessoa que se aproxima. Pareceu-me ser sua filha que, com evidente mau humor, emite uma frase imperativa, com tom de ordem: “Anda, vamos embora logo!”. A velha, com seu cigarro à metade e sua vontade de fumar completamente o seu amigo não tem outra opção a não ser jogá-lo fora. Para aproveitar ao máximo o seu vício, leva o cigarro até o chão. Não com a mão, mas com a boca: curva-se até a altura do meio-fio, dando uma imensa tragada durante o percurso “cabeça-chão”. Só então quando sua boca, com seu cigarro, está a poucos centímetros da calçada (ou do passeio, como preferirem) ela solta o cigarro para depois pisar no seu amigo. Essa aí, pelo menos, não parece sentir dores na coluna. Ainda bem que o cigarro é liberado!

 



Bruno de Assis Freire de Lima
 é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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