Metendo o focinho onde não é chamado

Metendo o focinho onde não é chamado

Hoje é desses domingos especiais. Avança o relógio em direção ao fim da “Noite das mães”. Está chegando o “horário-do-Sílvio”, preciso me apressar. Esse ano não fui ver minha mãe, mas assistir ao “Topa tudo por dinheiro” é uma forma de eu me sentir mais próximo dela. Desço a Mário Werneck com pressa, buscando a “onda verde” dos sinais que existe apenas na “onda nada verde” da BHTrans(torno!). Paro em frente ao Rancho Fundo e me distraio com o cheiro de batata-frita vindo do lado. Silêncio que se quebra:

— Ei, moço, que raça é essa?

Viro para a janela direita do carro assim que ouço essa pergunta. Estou parado no sinal e vejo mãe e filha derretendo ternuras para aquele corpinho peludo, de fios cinzas e dourados e igualmente atrevido: Julim, imponente, no meu colo, olhando também a janela. A mãe aparentava ter seus máximos 40 anos; a filha, uns 7.

— Oi, boa noite! YorkShire. – Respondi.

Dudu, até então dormindo no banco do carro, levanta-se para ver o que está acontecendo. Os dois amigos caninos vão para a janela e começam a latir, para mãe e filha de olhares curiosos. Como bom pai que sou (dos cachorros, certamente!), repreendo-os. Quero conversar naquela situação e eles me obedecem, baixando guarda.

— Ele é lindo! (Referiu-se a mãe apenas ao Julim).

— Cachorro é tudo de bom – respondi! – Não é por acaso que não tenho apenas um. Os dois são lindos!

A mulher sorriu sem graça, completando com um “Os três são lindos!”, me colocando na categoria de “seja um bom e belo cachorro também!” Pareceu-me que esta mãe (que não quero denominar de “cachorra”) estava era afim de alisar os meus pelos ou até mesmo me dar de mamar, filhote que sou (instinto materno? Jamais saberei…)

— Nós também temos cachorro! É Maltês. É fêmea. Muito lindinha! – Disse a grande homenageada do dia.

A menina, que a tudo olhava, sempre sorrindo para os cachorros, disse:

— É, mãe! Acha lindo, mas todo dia fica dizendo “É… qualquer dia eu coloco essa merda desse cachorro para fora de casa! Só sabe comer, mijar e cagar na casa toda!”

A mulher, que não sabia onde enfiar a cara de tanto constrangimento, tentou amenizar a situação:

— É, pois é… Fazem uma companhia e tanto, né? – sorriu sem graça, mudando o tom da cantada.

— Sim. Lá em casa somos nós três: Eu, Dudu e Julim. Também somos uma família. Eu também tenho instinto materno.

— Vamos contar isso pro papai! – sabiamente concluiu a menina com o mesmo sorriso do início.

O sinal se abriu. Mal tive tempo de registar o “tchau” para aquela mulher, seguido do mesmo sorriso amarelo-sensual de mãe sem graça, mãe sem-vergonha, com muita vergonha.

 


Bruno de Assis Freire de Lima
é formado em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Linguística e doutorando na mesma área. Possui livros infanto-juvenis, crônicas e contos publicados. Atualmente, colabora com o site Meu Bairro Buritis, onde publica textos sobre a vida no bairro. 

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