Da faxina ao próprio salão: Ele começou pequeno, enfrentou dificuldades e construiu no Buritis uma trajetória de 25 anos
Aos 14 anos, Dierley Rodrigues perdeu o pai e veio para BH por necessidade. Trabalhou como faxineiro e construiu no Buritis uma trajetória de 25 anos.

GENTE DO BURITIS
Do trabalho aos 11 anos ao Espaço DR: a história de Dierley Rodrigues
Depois de perder o pai ainda criança, abandonar os estudos para ajudar a família e chegar a Belo Horizonte sem ter onde morar, Dierley construiu no Buritis uma trajetória que começou praticamente do zero e chegou a reconhecimento internacional.
A história de Dierley Rodrigues começou muito antes do Espaço DR. Começou em Paraopeba, no interior de Minas Gerais, em uma família simples, onde a vida mudou completamente quando ele ainda era criança.
Dierley era o mais velho de quatro irmãos quando perdeu o pai, que morreu aos 33 anos. Ele tinha 11 anos.
A família, que já vivia com poucos recursos, passou a enfrentar dificuldades ainda maiores. A mãe ficou viúva aos 34 anos e passou a receber uma pensão que, segundo Dierley, correspondia a um salário mínimo.
Sem recursos e sem assistência, ele precisou assumir responsabilidades muito cedo. Na quinta série, deixou a escola para começar a trabalhar e ajudar a sustentar a casa.
Seu primeiro trabalho foi em um banheiro de ponto de ônibus. Depois vieram empregos em lanchonetes, restaurantes e hotéis.
Enquanto trabalhava, Dierley também acompanhava as dificuldades dentro de casa. Com o passar dos anos, sua mãe desenvolveu alcoolismo e acabou sendo internada em Belo Horizonte.
O começo em Belo Horizonte
Foi nesse contexto que Belo Horizonte entrou definitivamente na vida de Dierley.
Na capital, ele conseguiu um lugar para ficar e começou a trabalhar como empregado doméstico. Lavava, passava, cozinhava e cuidava da casa. Também assumiu a responsabilidade de cuidar de uma irmã mais nova.
Foi nessa época que começou a perseguir, ainda escondido, um sonho que carregava consigo: ser cabeleireiro.
Uma vez por semana, à noite, fazia um curso gratuito de cabeleireiro na Rua São Paulo, no Centro de Belo Horizonte. Para conseguir frequentar as aulas, precisava esconder da mulher para quem trabalhava que estava estudando.
Era uma formação simples, mas significava muito para ele. Enquanto trabalhava durante o dia, aprendia à noite a profissão que pretendia seguir.
Depois que sua mãe deixou a internação e voltou para Paraopeba, Dierley levou a irmã de volta para a cidade natal para que ela ficasse com a mãe. Ele então tentou seguir sua própria vida profissional.
Voltou para Paraopeba e trabalhou em um salão de beleza, mas permaneceu menos de um ano. A experiência não deu certo e ele retornou a Belo Horizonte.
Quando o sonho começou a virar profissão
De volta à capital, Dierley conseguiu uma oportunidade para trabalhar como cabeleireiro em um salão em Além Paraíba.
A chegada também foi marcada por dificuldades. Ele conta que viajou de carona em um caminhão de carvão e chegou sem ter onde dormir.
Durante algum tempo, dormiu dentro do próprio salão. O local não tinha chuveiro e havia apenas um pequeno lavabo. Muitas vezes, Dierley precisava tomar banho em postos de gasolina.
Em determinado período, chegou a dormir na rua.
Foi então que algumas clientes perceberam a situação pela qual ele passava e começaram a ajudá-lo. Uma delas o levou para morar com um grupo de enfermeiras no Santa Branca, onde encontrou um lugar para ficar.
Dierley considera essa mulher um “anjo” em sua vida e afirma que os dois continuam amigos até hoje.
Depois de trabalhar no Santa Branca por alguns anos, passou por outros salões até que, em 1996, o Buritis entrou em sua trajetória profissional.
O encontro com o Buritis
Naquela época, segundo Dierley, havia poucos salões no bairro. Ele começou trabalhando às segundas-feiras, cobrindo a folga dos profissionais de um salão.
Os clientes começaram a gostar do seu trabalho.
Depois de algum tempo, conseguiu uma cadeira para trabalhar naquele salão e permaneceu ali de 1997 a 2001.
O período, porém, também foi marcado por dificuldades. O salão enfrentava problemas e caminhava para fechar as portas. Dierley conta que também enfrentou situações em que pessoas tentaram levar seus clientes.
Foi nesse momento que decidiu abrir o próprio negócio.
Começar praticamente do zero
Em março de 2001, Dierley abriu seu primeiro salão no Buritis.
O espaço tinha cerca de 70 metros quadrados e estava muito longe da estrutura que o Espaço DR possui atualmente.
Segundo ele, no início praticamente não havia nada. Chegou a cortar cabelos em cima de uma lata de tinta porque ainda não tinha sequer uma cadeira adequada.
A conquista dos primeiros clientes também aconteceu de maneira improvisada.
Quando tentaram impedir que ele levasse sua agenda de clientes para o novo endereço, uma cliente decidiu ajudá-lo de uma maneira simples e criativa: colocou um grande anúncio na descida da José Rodrigues Pereira, com o nome de Dierley e seu número de telefone.
Na época, celulares ainda não faziam parte da rotina como hoje e o telefone fixo era o principal meio de contato. O anúncio ajudou os antigos clientes a descobrir onde ele estava.
Aos poucos, o pequeno salão começou a crescer.
Em aproximadamente um ano e meio, Dierley já tinha cerca de dez pessoas trabalhando com ele. O espaço foi reformado e, cerca de quatro anos e meio depois da abertura, ele deixou o primeiro endereço e mudou-se para uma loja com mais de 200 metros quadrados.
Do Buritis para o mundo
A trajetória profissional de Dierley continuou crescendo dentro do próprio Buritis.
Ele passou a trabalhar em parceria com a L'Oréal e participou de diferentes projetos, premiações e atividades profissionais.
Esse trabalho também o levou para fora do Brasil. Dierley conta que conheceu países como China, Rússia e Turquia, além de diversos destinos na Europa, em viagens relacionadas à sua atuação profissional.
Também recebeu prêmios em Paris, Belo Horizonte e em outras partes do Brasil.
A carreira que havia começado com um adolescente trabalhando para ajudar a família agora alcançava reconhecimento internacional.
Um salão que cresceu junto com o bairro
O pequeno salão de 2001 continuou se transformando.
Em 2016, Dierley inaugurou a sede própria do Espaço DR no Buritis, com cerca de 800 metros quadrados distribuídos em quatro andares.
A diferença em relação ao começo é enorme. Mas Dierley costuma resumir sua maneira de trabalhar em uma frase:
“O tamanho mudou. O critério, nunca.”
Essa filosofia está ligada à própria trajetória. Antes de comandar uma grande estrutura, ele havia trabalhado em casas de família, estudado escondido, enfrentado períodos sem moradia e aprendido a profissão na prática.
Ele também defende a importância de conhecer cada função dentro de um negócio.
“Eu precisava entender cada detalhe do negócio. Como você vai liderar uma equipe se não conhece a dor de cada função?”
25 anos depois
Em 2026, o Espaço DR completa 25 anos.
São 25 anos desde aquele primeiro salão no Buritis, quando Dierley tinha poucos recursos, poucos equipamentos e precisava conquistar os clientes um a um.
A estrutura cresceu, a equipe aumentou e a carreira ganhou reconhecimento. Mas a história continua tendo como ponto de partida aquele período de dificuldades vivido ainda na infância e juventude.
O menino que perdeu o pai aos 11 anos precisou abandonar a escola e começar a trabalhar.
O jovem que chegou a Belo Horizonte sem ter onde dormir precisou encontrar maneiras de sobreviver.
O rapaz que fazia um curso de cabeleireiro escondido encontrou na profissão uma possibilidade de construir seu futuro.
E o cabeleireiro que começou praticamente sem estrutura transformou um pequeno salão em um empreendimento que se tornou parte da paisagem do Buritis.
A história de Dierley Rodrigues não começou com uma grande estrutura, uma equipe numerosa ou reconhecimento internacional.
Começou com necessidade.
Passou pelo trabalho.
Foi construída com aprendizado, oportunidades e também com a ajuda de pessoas que cruzaram seu caminho.
Hoje, 25 anos depois da abertura do primeiro salão no bairro, Dierley continua no Buritis.
E a história que começou com um jovem tentando encontrar uma profissão acabou se tornando também parte da história de um bairro que mudou junto com ele.
Publicado em 30 de setembro de 2026
Por Meu Bairro Buritis
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