Do campo aos arranha-céus: a transformação do Buritis e do Estoril
Conheça a história do Buritis e do Estoril, desde as antigas fazendas e áreas rurais até a urbanização e verticalização que transformaram a região.

Buritis e Estoril: de fazendas e áreas rurais à paisagem que conhecemos hoje
Quem circula hoje pelas avenidas Professor Mário Werneck, Raja Gabaglia e Barão Homem de Melo dificilmente imagina que, poucas décadas atrás, grande parte dessa paisagem era formada por áreas rurais, fazendas, terrenos ainda não parcelados e trechos de vegetação.
A história do Buritis e do Estoril é relativamente recente como história urbana. A transformação mais importante da região ocorreu a partir da década de 1970, quando antigas propriedades rurais começaram a ser parceladas e a expansão de Belo Horizonte avançou em direção à região Oeste.
Antes dos bairros, havia propriedades rurais
A documentação histórica e acadêmica identifica a antiga Fazenda Tebaidas como uma das propriedades fundamentais para compreender a formação do Buritis.
O químico industrial Aggêo Pio Sobrinho começou, na década de 1930, a adquirir diferentes glebas de terra na região. Segundo levantamento histórico publicado pela Revista Encontro, foram 19 áreas, que juntas somavam aproximadamente 5 milhões de metros quadrados. A propriedade passou a ser conhecida como Fazenda Tebaidas.
A área permaneceu predominantemente rural durante décadas.
Um estudo da UFMG, baseado em levantamento aerofotogramétrico de 1972, mostra que a área que posteriormente seria ocupada pelo Buritis ainda não estava parcelada. A pesquisa registra também que a Avenida Raja Gabaglia estava em construção e atravessava uma região ainda pouco urbanizada.
Essa transformação da paisagem pode ser percebida também nas fotografias históricas da época: a região que hoje é densamente ocupada ainda apresentava grandes áreas abertas e vegetação.
A chegada da infraestrutura mudou a região
A construção e abertura de importantes vias foi fundamental para aproximar aquela região do restante de Belo Horizonte.
Entre elas estava a Avenida Raja Gabaglia, cuja implantação reforçou a ligação entre a Região Oeste e a Centro-Sul. Segundo pesquisa da UFMG, essa nova conexão viária valorizou terrenos que ainda não estavam parcelados e teve influência decisiva na ocupação posterior do Buritis.
Outro elemento importante foi a abertura das vias internas do novo loteamento, incluindo a Avenida Professor Mário Werneck e as ligações com a Raja Gabaglia.
O acervo histórico ligado aos comerciantes do Buritis preserva fotografias do período de implantação do loteamento. Uma delas mostra a antiga placa de identificação do empreendimento; outra, identificada como “Loteamento do bairro Buritis 1990”, permite reconhecer áreas onde atualmente estão o Colégio Magnum e o UniBH. Há ainda uma fotografia em que é possível identificar a extensão da Avenida Professor Mário Werneck, com o UniBH ao fundo. As imagens foram cedidas ao Jornal Daqui BH pela CONVAP.
O nascimento do Buritis como loteamento
O processo formal de loteamento do Buritis começou na década de 1970.
A pesquisa acadêmica da UFMG registra que, em 5 de novembro de 1976, foi aberto na Prefeitura de Belo Horizonte o processo de loteamento do bairro Buritis. O estudo também divide o processo de parcelamento em diferentes etapas.
O projeto inicial tinha uma característica muito diferente da paisagem atual.
O Buritis foi planejado originalmente para uma ocupação predominantemente residencial de baixa densidade. Registros históricos reproduzidos no livro da Escola Americana de Belo Horizonte mostram que as obras de implantação começaram no início da década de 1980 e que o projeto estava associado à ideia de um bairro residencial horizontal.
As primeiras casas começaram a aparecer nesse período. O acervo histórico dos comerciantes do bairro registra que as primeiras casas foram construídas em 1981 e que as principais ruas começaram a ser implantadas no início daquela década.
Ou seja: o Buritis que conhecemos hoje, marcado por edifícios, comércio intenso e grande circulação de veículos, não corresponde ao projeto original do bairro.
O Buritis que quase não tinha moradores
A transformação foi lenta no começo.
Uma pesquisa acadêmica da UFMG registra que, em 1989, apenas 64 dos 1.135 lotes implantados estavam ocupados ou em processo de ocupação. Isso ajuda a dimensionar a diferença entre o bairro daquela época e o atual.
O cenário começou a mudar significativamente no final da década de 1980.
Segundo estudo da PUC Minas, alterações na classificação urbanística do bairro contribuíram para permitir uma ocupação mais verticalizada. O mesmo estudo registra que, durante a década de 1990, a ocupação dos bairros Buritis e Estoril se intensificou.
É nesse período que começa a transformação mais radical da paisagem.
A região que havia sido planejada para receber casas passou a receber sucessivas construções de edifícios residenciais e comerciais.
E o Estoril?
A história do Estoril está intimamente ligada à mesma transformação territorial, mas sua origem não é exatamente a mesma do loteamento do Buritis.
Pesquisa da UFMG sobre a produção do espaço urbano na região identifica que o parcelamento de áreas denominadas Cercadinho, Fazenda Tebaídas e Chácara das Palmeiras deu origem aos bairros oficiais Buritis, Estoril e Bairro das Mansões. O estudo registra ainda que, na década de 1970, a área denominada Cercadinho recebeu a sede da Construtora Mendes Júnior e que o bairro Estoril também foi parcelado nesse período.
O chamado Bairro das Mansões também faz parte dessa história territorial. Parte dessa área posteriormente passou a ser identificada como Estoril e Buritis.
Por isso, a história dos dois bairros se cruza desde o começo.
A antiga Mendes Júnior
Um dos elementos mais marcantes dessa história é a antiga sede da Construtora Mendes Júnior.
A pesquisa da UFMG identifica a sede da empresa na região já na década de 1970 e registra a importância da estrutura para a ocupação posterior da região.
A presença da Mendes Júnior é especialmente importante para compreender as fotografias antigas da região.
Nas imagens da década de 1970, a estrutura da empresa aparece em meio a uma paisagem ainda pouco urbanizada. Décadas depois, aquele mesmo território passou a fazer parte de uma área densamente ocupada do Estoril.
É um dos exemplos mais claros de como a paisagem dos dois bairros mudou em poucas décadas.
O Estoril também passou por diferentes fases de ocupação
Os estudos sobre a região mostram que a ocupação do Estoril não aconteceu de uma só vez.
Uma pesquisa da PUC Minas registra que, ao longo da década de 1980, o Buritis passou a atender parte da demanda habitacional que se dirigia ao Estoril e que a ocupação dos dois bairros se intensificou durante a década de 1990.
Registros documentais de imóveis também ajudam a reconstruir essa fase. Uma reportagem da Rádio Itatiaia, baseada em documentos do 1º Cartório de Registro de Imóveis de Belo Horizonte, identifica uma área atualmente pertencente ao Estoril como parte do antigo Bairro das Mansões e registra um processo de loteamento realizado pelos irmãos Jacy e José Rodrigues Pereira na região da antiga Fazenda Cercadinho.
Um documento de 1987 já previa a execução de infraestrutura como pavimentação, meio-fio, drenagem, água, esgoto, energia elétrica e iluminação pública.
Isso demonstra que a urbanização do Estoril também envolveu diferentes propriedades e processos de parcelamento.
O Parque Aggeo Pio Sobrinho: uma parte da antiga paisagem que permaneceu
No meio dessa transformação urbana, uma grande área verde foi preservada.
A Prefeitura de Belo Horizonte informa que o Parque Aggeo Pio Sobrinho foi criado pela Lei Municipal nº 5.755, de 1990, e implantado em 1996. Sua área se originou do processo de parcelamento do solo que criou o bairro Buritis.
O parque possui aproximadamente 612 mil metros quadrados e integra o maciço da Serra do Curral. A área abriga nascentes que formam o córrego Ponte Queimada, afluente do córrego Cercadinho.
Assim, uma parte significativa da paisagem natural existente antes da urbanização permaneceu preservada dentro do tecido urbano.
De área rural a uma das regiões mais urbanizadas da cidade
A história do Buritis e do Estoril é, portanto, uma história de transformação acelerada.
Na década de 1970, fotografias aéreas mostram uma região ainda pouco urbanizada, com grandes propriedades, áreas verdes e poucas construções. A infraestrutura viária começou a alterar essa situação.
Na década de 1980, começaram a aparecer as primeiras casas e a infraestrutura dos loteamentos.
No final dos anos 1980 e principalmente durante os anos 1990, a ocupação ganhou velocidade e a construção de edifícios transformou radicalmente a paisagem.
As fotografias históricas do loteamento permitem enxergar essa transformação de maneira concreta. Onde hoje estão grandes edifícios, escolas, universidades, restaurantes e estabelecimentos comerciais, existiam terrenos vazios e ruas recém-abertas.
E talvez seja justamente essa transformação que explique uma das características mais marcantes dos dois bairros atualmente: apesar de sua aparência consolidada, Buritis e Estoril são bairros relativamente jovens na paisagem urbana de Belo Horizonte.
Uma história que ainda pode ser reconstruída
A história desses bairros não está contida em uma única fotografia ou em um único documento.
Ela está espalhada por levantamentos aerofotogramétricos, processos de loteamento, registros cartoriais, pesquisas acadêmicas, jornais, acervos de instituições e, principalmente, pelas fotografias preservadas por pessoas e organizações que acompanharam a transformação da região.
É por isso que fotografias como as do loteamento de 1990, da antiga Fazenda Tebaidas e das primeiras obras do Buritis são tão importantes.
Elas não mostram apenas lugares antigos.
Elas mostram como surgiu o lugar onde hoje vivemos.
Fontes consultadas
Universidade Federal de Minas Gerais: pesquisas acadêmicas sobre a formação, o parcelamento e a transformação urbana do Buritis e da região.
Repositório da UFMG — estudo sobre a produção do espaço e o parcelamento do Buritis
Repositório da UFMG — legislação urbanística e produção do espaço
Prefeitura de Belo Horizonte: Parque Municipal Aggeo Pio Sobrinho
Revista Encontro: História do bairro Buritis
Acervo histórico do Buritis: fotografias históricas do loteamento do Buritis
PUC Minas: Estudo sobre a transformação urbana do Buritis e Estoril
Escola Americana de Belo Horizonte: Livro histórico “Da Memória para a História”
Rádio Itatiaia: Documentação histórica do antigo Bairro das Mansões e da região do Estoril
Publicado em 19 de setembro de 2026
Por Meu Bairro Buritis
Encontrou uma informação desatualizada ou incorreta? Avise a gente.




