O que estamos ensinando às redes sociais que queremos ver?
Reflexão sobre o comportamento nas redes sociais e o engajamento maior com reclamações, violência e conflitos do que com conteúdos positivos sobre o Buritis.

O que a gente diz que quer ver — e aquilo que realmente faz a gente parar para olhar
Tem uma coisa que venho observando há algum tempo no Meu Bairro Buritis e que acho que merece uma reflexão.
Quando publicamos uma reclamação de morador, um flagrante de violência, um problema em uma rua, uma situação de trânsito ou qualquer outro fato que provoque indignação, as visualizações aparecem. Os comentários aumentam. As pessoas compartilham. A publicação circula rapidamente.
Mas quando produzimos um conteúdo para mostrar o que o bairro tem de bom, indicar um restaurante, apresentar um lugar interessante, contar uma história, falar dos animais que vivem por aqui ou produzir um guia para ajudar quem mora no Buritis e no Estoril, a reação costuma ser muito menor.
Isso não é uma crítica aos nossos seguidores. É uma constatação.
E, na verdade, é uma constatação que vai muito além do Meu Bairro Buritis.
Vivemos em uma época em que as redes sociais transformaram a nossa atenção em uma espécie de moeda. E, nesse ambiente, aquilo que provoca uma reação mais forte costuma ganhar vantagem.
Uma reclamação provoca indignação.
Um flagrante provoca revolta.
Uma notícia de violência provoca medo ou preocupação.
Uma situação absurda provoca vontade de comentar.
Já uma matéria mostrando um lugar agradável para conhecer no bairro pode ser simplesmente útil. Uma publicação sobre um animal que vive por aqui pode ser interessante. Um guia com opções para levar as crianças pode ser guardado para consultar depois.
E talvez justamente por não provocar uma reação tão imediata, esse tipo de conteúdo tenha muito mais dificuldade para competir pela nossa atenção.
Existe aí uma contradição interessante.
Às vezes, depois de uma sequência de publicações sobre problemas do bairro, recebemos comentários dizendo que o Meu Bairro Buritis “só publica coisa ruim”.
Mas será que publicamos apenas coisas ruins?
Ou será que as coisas ruins são justamente aquelas que recebem mais atenção?
Porque há uma diferença importante entre aquilo que uma página publica e aquilo que o público escolhe enxergar, comentar e compartilhar.
Nós publicamos os dois lados.
Mostramos problemas porque acreditamos que uma página comunitária também deve dar voz ao morador, cobrar soluções e chamar a atenção para aquilo que precisa ser corrigido.
Mas também mostramos o bairro que funciona. Os lugares que merecem ser conhecidos. Os personagens que fazem parte da nossa história. Os animais que dividem esse território conosco. Os pequenos negócios. As iniciativas interessantes. As histórias de quem vive aqui. As opções de lazer. As coisas que fazem do Buritis um lugar onde vale a pena morar.
Só que existe uma diferença entre publicar e consumir.
E talvez essa seja a parte mais incômoda da reflexão.
Será que estamos ajudando a construir nas redes sociais o ambiente que depois reclamamos que elas se tornaram?
Se damos muito mais atenção à violência do que à cultura, à reclamação do que à solução, ao conflito do que à história positiva, ao problema do que àquilo que merece ser valorizado, o algoritmo apenas aprende com o nosso comportamento.
Ele entende o que nos faz parar.
O que nos faz clicar.
O que nos faz comentar.
O que nos faz compartilhar.
E entrega mais daquilo.
Isso não acontece apenas no Buritis. É um fenômeno das redes sociais e, de certa maneira, um retrato da nossa geração.
Talvez a reflexão que fique seja justamente esta: o conteúdo que mais consumimos também ajuda a definir o ambiente digital que teremos amanhã.
Se queremos uma internet menos tóxica, talvez seja preciso começar a demonstrar interesse também por aquilo que não provoca raiva.
Se queremos que nossos bairros sejam apresentados para além dos problemas, talvez seja necessário dar atenção também às histórias boas.
Se queremos que pequenos negócios, projetos, pessoas e lugares interessantes tenham espaço, talvez seja preciso fazer mais do que simplesmente dizer que gostamos deles.
É preciso parar, ler, comentar, compartilhar, marcar alguém, salvar.
Não porque toda publicação precise necessariamente viralizar.
Mas porque atenção também é uma forma de valorização.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades que temos como usuários das redes sociais: entender que, cada vez que escolhemos aquilo que merece alguns segundos da nossa atenção, estamos ajudando a dizer qual tipo de conteúdo queremos encontrar daqui para frente.
No fim, talvez a pergunta não seja apenas:
“Por que as páginas publicam tanta coisa ruim?”
Talvez devêssemos perguntar também:
“O que nós estamos ensinando às redes sociais que queremos ver?”
Leonardo Orrico
Publicado em 09 de outubro de 2026
Por Leonardo Orrico
Encontrou uma informação desatualizada ou incorreta? Avise a gente.




