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Uma cidade para carros ou uma cidade para pessoas?

Quando o post mijou no cachorro - Coluna de Carlos Pires

Meu Bairro Buritis·11 de agosto de 2026
Uma cidade para carros ou uma cidade para pessoas?

Essa semana eu vi o poste (mais uma vez) mijar no cachorro. Não, não foi metáfora, ou talvez tenha sido.

Era quase seis da tarde, na Rua José Silveira, em frente ao BH Supermercados, naquela região da pista de cooper. Duas pessoas haviam acabado de fazer suas compras e chamaram um Uber ao mesmo tempo.

Dois carros chegaram, e, entre eles, uma senhora idosa, apoiada em uma muleta, tentando embarcar. Foi o suficiente...

Os motoristas não pararam exatamente junto à guia da sarjeta. O supermercado não possui uma área adequada para embarque e desembarque, apenas o acesso à garagem. Os carros ficaram alguns segundos onde não deveriam, alguém buzinou, outro motorista xingou, outro provavelmente xingou quem xingou, e em poucos instantes tínhamos instalado, gratuitamente, um pequeno espetáculo de intolerância urbana.

Era trânsito, mas também, nesse mesmo instante, era muito mais do que trânsito. Fiquei observando aquela cena patética, porque, curiosamente, ninguém ali parecia ser exatamente o vilão.

O motorista queria pegar o passageiro, o passageiro queria ir embora. A senhora precisava de mais tempo para entrar no carro. Os outros motoristas queriam seguir. O supermercado precisava receber seus clientes, e a rua precisava continuar funcionando.

Todos tinham uma razão, e quando todos têm uma razão, mas ninguém pensa no outro, então, nasce o caos, e foi aí que percebi que talvez o problema não esteja apenas nas pessoas. Está também na maneira como construímos nossas cidades.

Grandes supermercados recebem centenas, às vezes milhares de pessoas por dia. Mas quantos foram projetados pensando que parte desses consumidores chegará de táxi, Uber ou outro veículo de aplicativo?

No Buritis, basta observar. Supernosso, Verdemar, EPA, BH. Entramos, compramos, pagamos e saímos, mas onde está o espaço para aquele que não veio dirigindo? Onde está o lugar para o idoso? E o lugar para quem tem dificuldade de locomoção? Para quem chega de aplicativo? Para quem simplesmente precisa de trinta segundos para entrar em um carro?

Parece um detalhe, mas não, não é. É justamente nos detalhes que uma cidade revela o quanto se importa com as pessoas.

E nas igrejas o problema não é muito diferente. Em dias de missa, passar em frente à igreja no alto da ladeira da Alessandra Salum Cadar é quase um exercício espiritual, e talvez seja mesmo. Os carros formam fila dupla na subida e na descida, apesar da enorme placa colocada pela própria paróquia pedindo que isso não aconteça.

Na Igreja Boas Novas, na Barão, depois dos cultos, a situação se repete. Pessoas aguardam seus motoristas no meio da rua. Motoristas chegam desesperados, param onde conseguem, ligam o pisca-alerta e, naquele instante, parece que o restante da cidade deixa de existir. Quem vem atrás que espere. Quem precisa passar que desvie. Quem está a pé que se vire, e é justamente aí que a coisa fica filosófica.

Talvez o problema nunca tenha sido o carro, nem o Uber, nem o supermercado, nem a igreja. O problema somos nós, quando acreditamos que a nossa necessidade, naquele exato momento, vale mais do que a necessidade do outro.

O motorista pensa: "Só vou parar um minutinho." O passageiro pensa: "É só entrar no carro." O outro motorista pensa: "Não custa esperar." O pedestre pensa: "Eles que desviem."

E, quando percebemos, uma cidade inteira está funcionando à base do "é só um minutinho". Só que somos milhões de pessoas vivendo simultaneamente. Se cada um reivindicar para si apenas "um minutinho" de exceção, a cidade inteira para.

Talvez seja isso que significa viver em sociedade. Entender que o espaço público não é um espaço sem dono, ele é justamente o espaço de todos. A rua é minha, mas também é sua. A calçada é minha, mas também é do cadeirante. O estacionamento é meu direito, mas o embarque seguro também é direito de quem não dirige.

O trânsito não é apenas um problema dos motoristas. É um problema de motoristas, passageiros, pedestres, comerciantes, igrejas, supermercados, arquitetos, urbanistas e, principalmente, de cidadãos.

Precisamos reaprender uma palavra que parece antiga, mas continua absolutamente moderna: colaboração. E talvez outra, ainda mais difícil: empatia. Não aquela empatia bonita das redes sociais, que aparece em frases prontas, mas a empatia prática, aquela que faz o motorista pensar no carro que está atrás, que faz o passageiro não exigir que o motorista pare no meio da rua, que faz o supermercado perceber que seu cliente não é apenas aquele que chega de carro próprio.

A empatia que faz uma igreja perceber que seus fiéis precisam sair sem transformar a rua em estacionamento, que faz todos nós lembrarmos que, antes de sermos motoristas, passageiros, fiéis, clientes ou pedestres, somos pessoas compartilhando o mesmo espaço.

E foi por isso que comecei dizendo que vi o poste mijar no cachorro, porque, naquela tarde, todos estavam certos e todos estavam errados. O motorista reclamava do passageiro, o passageiro reclamava do trânsito, o trânsito reclamava dos carros, os carros reclamavam da falta de espaço, e a cidade, silenciosamente, reclamava de todos nós.

Talvez o verdadeiro problema seja que construímos cidades pensando em veículos e depois esperamos que seres humanos consigam caber dentro delas, e sim, não usarei um “talvez”. Já passamos da hora de inverter a essa lógica.

Antes de construir mais uma garagem, mais uma entrada monumental, mais uma fachada bonita ou mais algumas vagas de estacionamento, talvez alguém devesse perguntar: - "E as pessoas? Como elas chegam? Como elas saem? E, principalmente, como fazemos isso sem atrapalhar a vida de quem está passando?"

Parece uma pergunta simples, não é? Mas talvez uma cidade civilizada comece exatamente quando aprendemos a fazê-la, porque, no fim, ninguém mora no trânsito, ninguém mora no supermercado, ninguém mora na igreja, nós moramos uns com os outros, e isso deveria ser suficiente para mudar a maneira como ocupamos a rua.

Carlos HM Pires :@champbrasil

Foto: Idanir Pawelkiewicz